Setembro amarelo: a depressão é o mal do século?

Meu objetivo neste texto não é explicar o que é a depressão ou quais são seus principais sintomas, pois já os fiz neste texto. Também não vou entrar na questão de tratamento, pois já escrevi sobre esse assunto neste outro texto. Quero comentar aqui sobre a escalada da depressão a um nível quase que epidêmico. O transtorno atinge hoje cerca de 320 milhões de pessoas no mundo e a previsão também não é animadora: a OMS (Organização Mundial da Saúde) prevê que a depressão será a doença mais comum do planeta dentro de dez anos. Dados como esses levantam a necessidade da conscientização. A campanha Setembro Amarelo vem, desde 2015, sendo uma importante maneira de levar informação a respeito da depressão, porém o preconceito e o estigma social continuam sendo reais.

A depressão é contemporânea?

Repare que estamos muito frequentemente expostos a situações estressantes, como no trabalho ou no trânsito. Estamos também vivendo um momento em que a ansiedade faz parte do dia a dia de grande parte da população – levantamentos recentes apontam o Brasil como o país mais ansioso do mundo. As relações superficiais, o sedentarismo, a supervalorização da aparência e da ideia de felicidade constante nas mídias sociais… tudo isso funciona como catalisador da depressão.

Há, portanto, uma tendência em pensar que a depressão é uma doença nova. Afinal, o número de casos vem aumentando consideravelmente ao longo das últimas décadas e é comum imaginar que isso se deva ao ritmo acelerado de nossas vidas, daí a impressão de que se trate de um transtorno que eclodiu neste século. Mas, na verdade, a depressão sempre existiu, só não se falava tanto sobre ela.

Considerado o pai da medicina, o grego Hipócrates já mantinha registros sobre uma doença de ordem mental que acometia a população e que possuía sintomas muito similares aos da depressão. Isso antes mesmo do nascimento de Cristo. Na época, esse fenômeno foi chamado de melancolia.

E embora a quantidade de diagnósticos esteja realmente aumentando e nossas vidas, de fato, sejam muito estressantes, é importante lembrar que há mais abertura hoje para falar sobre depressão do que havia trinta anos atrás. Hoje se vê muitos artistas e celebridades revelando que possuem o transtorno e, assim, fazendo com que o assunto seja tratado na mídia. Campanhas como o Setembro Amarelo também contribuem para a disseminação de informações relevantes sobre a depressão, reduzindo um pouco a resistência em buscar um tratamento efetivo junto a um profissional de psiquiatria.

O que virá pela frente?

A quarentena provocada pelo coronavírus foi responsável por um aumento de diagnósticos de depressão. Uma população um pouco mais deprimida será uma das heranças da pandemia, isso é verdade. A previsão da OMS, por sua vez, é apenas uma previsão. Não há como saber o que enfrentaremos nos próximos anos em relação à saúde mental, mas uma coisa é certa: casos de depressão vão continuar surgindo. Assim como vai continuar existindo a necessidade de falar sobre ela.

No Brasil, muitos ainda enxergam a depressão meramente como um momento de tristeza e não como uma doença grave. A maioria das pessoas entre 24 e 35 anos teria vergonha de revelar um diagnóstico de depressão para familiares ou colegas de trabalho, seja pelo medo de não serem compreendidas, seja por se sentirem constrangidas de alguma maneira. Acredita-se que o tabu seja maior entre os mais velhos, mas pesquisas como essas deixam claro que é um tema nebuloso entre todas as faixas etárias.

O grande problema em tratar assuntos importantes como tabu é justamente a desinformação, o que impede, no caso da depressão, o diagnóstico e um tratamento efetivo. Há muitas pessoas que relutam em buscar ajuda, pois não acreditam que estejam sendo acometidas por depressão – começando pelo fato de desconhecerem do que, de fato, se trata a doença.

A depressão é, sim, uma doença que causa profundo sofrimento não só ao paciente, mas em todos em seu convívio e que, em casos mais graves, pode chegar à morte. Porém, o mal do século, no fim das contas, talvez não seja a depressão, mas a ignorância em relação ao transtorno. Até certo ponto, podemos culpar essa ignorância por novos casos. A ela podemos atribuir o agravamento de muitos quadros. E podemos responsabilizá-la por alguns casos de suicídio.

Mais de 130 milhões de pessoas possuem acesso à internet no Brasil. Imagine como seria diferente se todas elas investissem um pouco do tempo para descobrir mais sobre o que é a depressão, como lidar com alguém que esteja enfrentando a doença e como apoiar.

Se você está aqui, significa que você quer saber mais sobre o assunto, quer se educar e se informar. Obrigada pelo seu interesse! Não sabemos como serão os próximos anos, mas certamente serão melhores – ou, no mínimo, um pouco menos preocupantes – se mais pessoas souberem onde estamos pisando.

E não deixe de conferir os próximos textos, que também irão tratar sobre o setembro amarelo e sobre o combate à depressão. Enquanto isso, aproveite para ler algumas publicações antigas que abordam o assunto:

A importância das atividades físicas no tratamento da depressão
Benefícios da música no tratamento e recuperação da saúde mental
Plano individualizado de tratamento da depressão

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